quinta-feira, 13 de maio de 2010

NÃO GOSTO DA CLARICE, POSSO?




Comigo não, violão

Em um entrevista, acho que para o Otto Lara Resende. O Otto todo cheio de dedos, tratando-a com a diva que ela era. Uma hora lá ele fez uma pergunta específica sobre um texto dela. E a diva respondeu, "Eu própria não entendo a maior parte das coisas que escrevo". Pombas, gente! Ela própria assumiu que não entende e vamos nós nos metermos a entender? Mas esse é um problema das pessoas cujos mitos pessoais se tornam maiores do que elas mesmas - e maiores até que suas obras. Elas não conseguem desmentir "verdades" que se formam sobre elas, quase que à sua revelia. O John Lennon foi outra vítima dessa coisa do mito pessoal. Façam um teste: vocês conseguem imaginar o John Lennon fazendo cocô, indo ao dentista consertar uma obturação que caiu ou reclamando com o garçom que o bife está mal-passado? Impossível. A gente ouve o nome John Lennon e imediatamente se forma em nossa cabeça a imagem mítica do John, sentado àquele piano branco, cantando, "Imagine all the people, living for todaaaay", com a japonesa flutuando ali, ao redor dele (brrrrr). O que ele humanamente dizia ou deixava de dizer era quase irrelevante ante essa onipresença mítica do São João Lennon e suas palavras bocós de paz e união entre os homens.

Mas voltemos à Clarice. Clarice, a dona-de-casa aborrecida e a escritora igualmente aborrecida que não entendia patavinas do que ela própria botava no papel. Interessante que sua literatura, arcana, obscura e supostamente misteriosa acabou servindo de paradigma para uma multidão de subliteratos que, não achando suficientemente nobres seus afazeres corriqueiros, se meteram a querer se expressar literariamente. E foram na fonte certa, os subliteratos, infalivelmente certa. Mistério é tudo o que desejamos quando nossas vidinhas óbvias e insossas deixam muito a desejar. Por essas e por outras, acho a mitificação da Clarice Lispector extremamente nociva à literatura brasileira.

E outra coisa: confundem as esquisitices da Clarice como manifestações super-refinadas de seu talento. Que nem essa coisa de dizer que o suicídio da pobre Ana Cristina César foi o último gesto poético dela... Me poupem, me poupem. A moça estava ruim da cabeça, certamente sofrendo horrores, e vocês vêm me falar em último gesto poético?

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